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domingo, 21 de agosto de 2016

CUMPRE O TEU SONHO, POETA



A responsável pelos recursos humanos examinava os currícula das pessoas que procuravam emprego. Para além da documentação entregada, a mulher olhava também para o perfil nas redes sociais dos candidatos. Desde havia vários dias, muitos deles, nos seus perfis, diziam que a sua profissão era poeta. A mulher não pôde evitar sorrir. Decerto tinha um trabalho para todos eles, para aqueles quatro que escreveram que a sua profissão era "poeta".

*  *  *

Os quatro estranhos coincidiram na terminal internacional do aeroporto. Os quatro tinham como destino uma capital latinoamericana. Para os quatro, a agência de emprego procurara o mesmo trabalho. Só durante a viagem foi que os quatro, dois homens e duas mulheres, começaram a falar e a comprovar que a aparente casualidade não era tal. Todos receberam, aliás, uma pasta com documentação onde se lhes explicava que para poderem trabalhar na profissão dos seus sonhos, deviam primeiro fazer um curso prático de formação num país sul-americano

*  *  *

Treze horas mais tarde, os quatro indivíduos aterravam naquele aeroporto andino. Um homem estava à espera deles na saída da zona de viageiros. Sem qualquer explicação, conduziu os quatro estrangeiros para uma ruela do bairro colonial. Amavelmente pediu-lhes para descerem da furgoneta e passarem para a sua sala de aula. Os quatro estranhos ficaram sós na entrada de uma rua cheia de artesanos locais. Mas o primeiro de todos eles era um velhote sem dentes mas com gravata que sorria para eles enquanto acenava para o seu próprio cartaz, no qual dizia: Poemas variados, temas românticos, folclóricos, para crianças, festivos, sonetos, a 2 X 5 dólares.

— Bom dia, amigos. Eu serei o vosso tutor de viver da poesia... — disse-lhes então o velhote com o seu sorriso sem dentes — . Coloquem-se por esta rua e as vizinhas, escrevam um cartaz como este e comecem a viver da poesia... Ah, e não se esqueçam da gravata!


© Frantz Ferentz, 2016

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

TOMAR O PARTIDO

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— Não quero que te zangues contigo mesma —disse ele.
— Que bonzinho és —respondeu ela—. É porque não queres que sofra?
— Não, é porque não sei por qual das tuas duas partes tomar o partido...

© Frantz Ferentz, 2106

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

VOCÊ NÃO SABE QUEM SOU EU


O tipo com óculos de sol, fato e garavata apesar do calor, disse-me enfastiado:
— Você não sabe quem sou eu.
Eu, certamente, não sabia quem era ele. Por isso disse-lhe:
— Se for importante para si, diga, e logo conseguirei esquecer-me de si em três segundos, nunca armazeno informação inútil na minha memória.
— Como se atreve?
— Mas de que se queixa? Assim poderá dizer-me até vinte vezes por minuto quem é você, e vinte vezes por minuto eu esquecerei quem é você.
— Mas você não sabe com quem está a falar!!
— Só me deu dois segundos, assim é impossível esquecer quem é você. Prove outra vez quando eu contar até três...

© Frantz Ferentz, 2016

domingo, 31 de julho de 2016

O REFLEXO DE PALMIRA


A Palmira era uma de tantas mulheres cuja autoestima, simplesmente, não existia. Acabava de sair de um relacionamento com um macho machíssimo que desde o início foi minando os sentimentos positivos que a mulher tinha acerca de si própria. Chegaram dez anos para que ele se desfizesse dela como se atira um lenço de papel usado ao lixeiro. Depois daquilo, chegaram as intermináveis sessões do psicólogo, que teve que ir reconstruindo aquela mulher rota em pedaços. A base da terapia era algo que de fora podia semelhar incompreensível ou até arrogante, mas o psicólogo ordenou à Palmira que cada vez que estivesse perante um espelho, por acaso, sem querer ou porque sim, se repetisse ante o seu reflexo: 

— És uma mulher muito linda.

A Palmira levava-o tão a sério que até esperava que qualquer dia a imagem cobrasse vida própria e lhe dissesse:

— Obrigada. Eu sou mesmo linda.

Se a sua imagem tivesse vida própria, já devia estar convicta que era mesmo linda depois de um ano de lho repetir várias vezes por dia. Porém, naquele dia não foi a sua imagem que falou frente ao vidro da montra onde ela se refletia, mas um miúdo de cerca de quatro ou cinco anos que se colocou ao seu lado, com um gelado numa mão, que olhou para o reflexo e depois para ela e disse-lhe:

— Tu és mais linda que a outra mulher.

— Que mulher?

— Essa — e a criança acenou para o reflexo da Patrícia.

A Palmira sorriu. Sentiu-se feliz por fim em muitos anos. O miúdo voltou a sorrir e depois correu para onde estava o pai, que já chamava por ele.

© Frantz Ferentz, 2016

sábado, 30 de julho de 2016

PORQUE CHORAM OS CIGARROS

Nunca entendi porque a Isabel, embora tivesse aquele grave problema com as cordas vocais (e do qual já fora operada), continuava a fumar assim. 

— Não estás ciente do mal que te faz? —preguntei-lhe muitas vezes. 

— Estou —dizia ela, mas continuava a fumar— Porém, há um motivo que tu nunca entenderás —adicionou. 

Até o dia em que teve que ser operada de urgência, quase a vida ou morte, com um cancro de garganta. Quando fui vê-la, logicamente não falava. Só pudem pegar-lhe na mão e desejar-lhe o melhor. Ela agradeceu com um sorriso.

Quando voltei a encontrá-la três meses depois, vi-a com um cigarro na mão. 

—Mas, Isabel... —comecei a dizer. 

Ela levou o cigarro à boca e escreveu numa caderneta: «Não me digas nada... mas agora vou dizer-te a razão. Embora eu quisesse deixar de fumar, não posso. Eu sou uma mãe para estes pequeninos. Enquanto eu os fumo, eles são felizes porque vivem. Tenho que fumá-los um trás outro». 

Eu olhei então para o cigarro que então sustinha na mão e disse para ele:

— Cumprimenta todos os teus irmãos e preparai-vos, porque ides ficar órfãos em breve. 

Então, uma voz aguda surgiu do cigarro na mão e disse-me: 

— Senhor, não lhe diga isso, não lhe diga isso, nós amamos a Isabel! O que seria de nós sem ela? O quê?

Nesse momento entendi tudo. Maldisse as multinacionais do tabaco por terem inventado o cigarro com sentimentos para assim enganchar mais ainda os fumadores ao vício.

© Frantz Ferentz, 2016

segunda-feira, 25 de julho de 2016

A NOTÍCIA



A notícia chegou diretamente do gabinete do primeiro ministro para os faxes das redações. Devia ser emitida tal como vinha redigida, sem modificar nem uma vírgula. Na estação de televisão Razão TV, a mais fiel ao regime, limitaram-se a seguir o protocolo. Assim que a notícia saiu do fax num longuísimo rolo de papel, foi caindo no molde em cima da cadeira, até que tomou forma humana. Depois, puseram-lhe uns óculos e uma perruca. A seguir, a câmara foi ligada e a notícia, sob aparência de um locutor, leu-se a si própria, com total normalidade, fiel à voz do seu amo, para todo o país.

© Frantz Ferentz, 2016

sábado, 23 de julho de 2016

BODAS DE OURO


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Celebravam os cinquenta anos de matrimónio do casal. Ele era mestre e ela era consumidora compulsiva de programas de televendas. Ninguém entendia como ele ainda amava profundamente aquela mulher tão ignorante e consumidora, mas o segredo era bem simples: vocação. Sim, enquanto ela ainda escrevesse com tantas gralhas ortográficas, ele ainda teria motivos para corrigi-la e, portanto, para amá-la. As gralhas dela eram, sim, a razão da sua vida.


© Frantz Ferentz, 2016

quinta-feira, 21 de julho de 2016

O FIM DO MUNDO APROXIMA-SE

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   — Olha esta notícia. Aqui diz que uma associação católica anuncia o fim do mundo para 29 de julho —disse ele—. Aliás pedem para as pessoas darem todo o seu dinheiro para a associação.
   Ela terminou de se limpar a boca com o guardanapos. Deu uma vista de olhos para a notícia e disse:
   — Já nos foderam. Assim não vamos poder fazer a viagem que tinhamos prevista à Irlanda no início de agosto —comentou ela e deu um novo bocado à maçã que tinha na mão.
   — Pois é, mas sê positiva. Se não fizermos a viagem, poupamos muito dinheiro.
   — Certo. É só vermos a parte positiva das cousas... Olha, teríamos que dar um curso de positividade perante o fim do mundo aos da associação.
   — De graça?
   — Evidentemente não...

© Frantz Ferentz, 2016

sábado, 18 de junho de 2016

GOLPE DE ESTADO NA ACADEMIA DA LÍNGUA



Durante a reunião ordinária dos excelentíssimos académicos da língua, um grupo de pessoas cobertas com passa-montanhas sequestraram os ilustres membros da instituição. Não pediram resgates, apenas compreensão.

Três horas mais tarde, a solene instituição declarava a liberdade absoluta de escrever como cada um quiser, sem regras de acentuação nem utilização das vírgulas.

A resolução foi acolhida com uivos de alegria pelos estudantes. Infelizmente, mais de quinhentos professores foram executados por se terem declarado insubmissos à anarquia ortográfica.

© Frantz Ferentz, 2016

sexta-feira, 17 de junho de 2016

TODA A VIDA NOS LIVROS

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— Não entendo como podes ter tanto livro em casa. Vão ocupar todo o teu espaço vital.
— Os livros são a minha vida, já deverias saber.
— Está bem, mas pelo menos podias desfazer-te daqueles que já leste, certo?
— Bom, de alguns já me desfiz. E nem compro mais livros.
— Não posso acreditar. Cada vez que venho por aqui, encontro que tens mais livros. Alguns muito pequeninos. Parece que se reproduzem.
— É que se reproduzem...
— Estás de brincadeira. Como vão reproduzir-se os teus livros. Nem que tivesses sexo com eles.
— Eeehhh... Isto... um cafetinho?

© Frantz Ferentz, 2016

A PROFISSÃO MAIS ESTRANHA DO MUNDO

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Estava farto de receber convites de amizade através das redes sociais. Desde que me deram um prémio literário de segunda categoria, dúzias de pessoas procuravam a minha amizade e todos eles, sem exceção, punham como profissão nos perfiles deles: poeta. Nunca logrei perceber como poeta fosse uma profissão, mas a minha experiência é que as pessoas que catalogam assim o seu modo de ganharem o pão têm uma porta dimensional na cabeça. 

Por isso, quando cheguei ao vigéssimo pedido de amizade do género, chateei-me e resolvi fazer algo. Assim, mudei o meu status nas redes sociais e eu também pus qual a minha profissão: o melhor poeta do mundo (sem discussão).

A partir daquele momento deixei de receber pedidos de amizade. Pelo menos de gente cuja profissão era poeta. Foi mesmo um alívio.

© Frantz Ferentz, 2016

sábado, 11 de junho de 2016

OS OLHOS SÃO A VIDA DO CORRETOR. CAMPANHA PARA A PREVENÇÃO DA ORTOGRAFIA

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Esta manhã acordei com uma irritação terrível nos olhos. Estavam imensamente vermelhos, portanto fui para as emergências do hospital. Lá o doutor que me atendeu examinou os meus olhos com muita atenção. Finalmente perguntou-me:

"Teve uma maratona de televisão ou de computador?"

"Não, doutor. O único que tenho feito durante esta semana é corrigir e corrigir exames..."

Lá o doutor reagiu de outra maneira. Pegou numa lupa e começou a examinar com mais calma os meus olhos. Cabo de um bocadinho, disse-me:

"Em todos os anos de carreira, e são muitos, nunca tal vi".

"O quê, doutor?"

"Os seus olhos estão cheios de vírgulas".

Então compreendi. Compreendi qual a razão da minha irritação ocular. Depois de uma semana a ler textos tão horríveis, cheios de vírgulas mal colocadas, aquelas vírgulas acabaram saltando para os meus olhos, porque uma vírgula entre sujeito e verbo vai contra natura. E lá foram todas aquelas vírgulas sem qualquer critério ortográfico, para os meus olhos, para lá foram as malditas.

© Frantz Ferentz, 2016

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

OLHAR A TELEVISÃO PROATIVAMENTE


A minha mãe

— Não aturo tanta publicidade a interromper os filmes — comentou ele quando depois de dez minutos de passarem filme, houve outra pausa de sete minutos.

— Então, olha a televisão proativamente — disse a mãe anciã sem deixar de tricotar

— Proativamente? — perguntou ele.

— Embora sejas meu filho e por cima catedrático de universidade, és bem fato, meu. Quero dizer: «Baixa o volume do aparelho durante os anúncios...»

Frantz Ferentz, 2015

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

DESTRADUZINDO


A tradutora aceitou a tradução daquele livro porque sabia que seria o trabalho da sua vida. Levara anos a esperar por uma oportunidade assim, pois sabia que a tradução daquele livro tão importante, o romance dum ganhador do prémio Nobel, faria dela a tradutora mais buscada do país.

Começou o seu trabalho com entusiasmo, mas quando chegou ao capítulo 3, descobriu que o capítulo 1 voltou a aparecer na língua original no seu computador. Pensou que talvez fosse uma falha informática. Deixou estar a coisa e prosseguiu. Quando chegou ao capítulo 6, descobriu que o capítulo 2 também se tinha destraduzido. Voltou para trás. Se era um problema informático, ela não sabia como resolver. Voltou a traduzir os capítulos 1 e 2, mas então descobriu com horror que o 4 e o 5 também se destraduziram.

Desde então, por cada dois capítulos que traduzia, outros dois se destraduziam. A tradução do romance não avançava, a tradutora chorava desesperada. Aquele era o trabalho mais importante que ia receber em toda a sua carreira e não avançava. Chorando, ligou para um colega e contou-lhe:

— Oi, a cada dois capítulos que traduzo, outros dois destraduzem-se. O que achas?

— Acho que é normal —respondeu ele—. És tu mesma que os destraduzes, porque de facto não queres que essa tradução acabe, queres que dure para sempre.

— Mas que estás a dizer, Ulisses?

— Estou a dizer a verdade, Penélope...

Frantz Ferentz, 2015

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

O ANÚNCIO NAS REDES SOCIAIS



O Teddy carregou a foto do velhote no seu perfil e escreveu: «Este é o Carlos, um ancião perdido no bairro de São Felício. Se alguém o vir, contate comigo: teddy_9065@gmail.com. Ele tem demência senil. Obrigado». Imediatamente, baixo a foto começaram a aparecer comentários desejando sorte ao Teddy para encontrar o Carlos, cujos olhos tenros chamavam a atenção.

"Oxalá houvesse mais pessoas como você"

"Que exemplo de amor a uma pessoa"

"Se eu fosse esse velhote, gostaria de ter alguém como você para se ocupar comigo"

Eram algumas das postagens que recebia o Teddy, o qual, ao cabo, na solidão do seu escritório, remexeu o rabo e largou um guau que ninguém conseguiu ouvir, mas que significava: "se vocês soubessem como é dura a vida do animal de estimação hodierno".

Frantz Ferentz, 2015

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O BEIJO DE BOA NOITE

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— Vê esse miúdo que vai lá? — comentou uma mãe que acabava de deixar o filho na cancela de entrada à escola—, dá-me muita pena.
— Por quê? — perguntou outra mãe que estava ao seu lado.
— Porque diz que sua mãe lhe dá um beijo todas as noites antes de ele adormecer.
— E tem isso algo de especial?
— Tem, porque a mãe morreu há já três anos.
A segunda mulher sorriu e apenas disse:
— Mas ele bem sabe que eu estou morta.

Frantz Ferentz, 2015

FRASES BONITAS


A Andrea L.B.

«Fica com aquele
que te olhe quando voas
que te deixe voar
que te encoraje a voar
que te alcance no voo»

Ele sentiu que lhe caía uma lágrima de emoção ao ler o texto no ecrã dela. Disse então passando a mão com sangue pelo queixo:

— Puseste tu isto no teu muro da rede social, certo? É que eu te' sou assim.

Ela, deitada no chão, cheia de hematomas, com um lábio roto, ainda murmurou um triste sim.

Frantz Ferentz, 2015

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

POEMAS DE AMOR VIAJANDO NUMA GARRAFA

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O Carlos conheceu a Micaela em Madrid. Ele era apenas um camareiro, ela... ela podia ser qualquer coisa, talvez um astro do céu aos olhos dele. Bastaram uns sorrisos e umas ligeiras gargalhadas, bem como uma roçadura leve da mão dela na dele ao deixar uma gorjeta.

Quando ela saiu pela porta, o Carlos decidiu que ganharia o coração daquela mulher para sempre. Embora ela morasse em Lisboa e ele em Madrid, enviar-lhe-ia poemas de amor dentro de uma garrafa pelo Tejo abaixo. Ele pediu aos santos, ao seu deus, ou a quem for, que aquela garrafa chegasse até a Micaela. E assim, lançou a garrafa ao Tejo em Aranjuez, com o nome e os apelidos dela bem à vista na garrafa. Antes de a lançar ao rio, beijou-a e disse-lhe: "Chega".

O Carlos deixou a garrafa na água e sentiu que chegaria, apesar de todos os obstáculos, até o Estuário do Tejo, que nem as barragens nem qualquer outro bançado impediriam que alcançasse Lisboa. Acertou, a garrafa com os poemas salvou todas as barreiras, todas, porque o destino tinha decidido conseguir que ela alcançasse Lisboa, Assim, três meses depois, a garrafa flutuava no beira do Mar da Palha, ao pé do cais da Praça do Comércio.

E porque o destino assim o quis, naquela tarde de sábado, a Carolina viu a garrafa flutuar. Logo pôde ler o seu nome nela. Tirou o calçado e meteu-se na água até as canelas para recolhê-la. O destino satisfizera os desejos do Carlos até o final. Ela retirou a rolha. Os poemas, dentro, estavam intactos. Ficou a contemplar aquela garrafa onde ia o seu nome escrito por dentro. Era um milagre. Sim, era um milagre. Recolheu os poemas, fez uma bola com eles e atirou-os para o mar, onde afundiram lentamente. Depois, com um sorriso nos olhos, regressou com a garrafa na mão para a ourela. Sentia-se feliz, acabava de encontrar por acaso uma garrafa de um raro vinho cujo preço para um colecionista podia ascender a vários milhares de euros. Por algum capricho do destino, aquela garrafa chegara até às suas mãos, até às suas mãos de diretora de uma casa de leilões.

Frantz Ferentz, 2015

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

AÇÃO POÉTICA ALTERNATIVA



O Mingo era um idealista que cria que a poesia podia mudar o mundo, nele ressoava aquele verso que dizia que "a poesia é uma arma carregada de futuro", embora não soubesse exatamente quem a pronunciara. Por isso, naquela manhã entrou no banco ateigado de pessoas. Levava o casaco na mão e em baixo escondia uma pistola. Quando esteve no centro do local tirou a arma e disparou duas vezes para o ar. As trinta e tal pessoas que lá havia ficaram paralisadas, a maioria deitaram-se no chão. E então o Mingo sentou tranquilamente numa cadeira que lá estava, sem soltar a arma e tirou uns papeis que levava no bolso. A seguir leu um longuíssimo texto em que intencionava declarar o seu amor à lua. Era um texto espesso, do qual apenas se entendiam algumas palavras, pois o Mingo não vocalizava. E continuou a ler, entusiasmado, a vibrar com cada sílaba mal pronunciada que emergia dos seus lábios, enquanto o resto das pessoas presas naquela sala não entendiam nada e oscilavam entre o terror, o tédio e o furor. Quando afim concluiu a sua leitura, vinte minutos depois, com uma declaração de amor para a lua, o Mingo disparou novamente duas vezes para ar e gritou:

— Obrigado pela vossa atenção. Isto é cortesia da Poética Universal para Tempos Alternativos

E foi embora. Perderam a pista do Mingo, até dois meses depois, quando apareceu toda um cargamento de bacalhau num contentor, onde cinco mil peças de peixe tinham cada uma um frasquinho no estômago e, dentro de cada recipiente, um poema diferente do Mingo perfeitamente enrolado, mas todos os poemas iam escritos para a lua, sua paixão incomensurável. Como assinatura, para além do seu nome, novamente aparecia Poética Universal  para Tempos Alternativos.

Porém, apesar de tanta atividade poética, o Mingo nunca deu compreendido por que o seu partido Poética Universal para Tempos Alternativos nunca conseguiu mais de dois votos nas eleições para a autarquia. Um era sempre o seu, o outro... o outro talvez fosse da lua, mas isso ele nunca saberia. Contudo, o facto de as siglas do partido serem PUTA, também não ajudava muito.

Frantz Ferentz, 2015

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

OS FALSOS AMIGOS

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Depois de muito tempo sem se encontrar, os dois colegas tradutores, o Jan e o Hans, tomavam juntos um café ao pé dum canal de Amsterdame.

— E como te' vai a vida, Jan?

— Poderia ir melhor, mas não tenho mais que problemas com os falsos amigos.

— Faz favor, usa a expressão correta: diz-se 'cognado'. Mas conta, talvez eu te' possa ajudar.

— Está bem, há um certo cognado, como tu dizes, que abusou da minha confiança e fez-me acreditar que era um verdadeiro amigo, mas afinal... oi, existe alguma outra palavra para "verdadeiro amigo"?

Frantz Ferentz, 2015

sábado, 17 de outubro de 2015

O HOMEM SENSÍVEL

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Ele sempre afirmava que sob aquela pele de sábio, de catedrático, de intelectual, havia um homem imensamente sensível, mas ninguém lhe dava ouvidos. Para todos ele era só conhecimento, aquele que demonstrava nos seus livros, palestras, intervenções, até aquele dia, quando já farto, diante do público despiu-se, quitou a pele toda como se fosse uma banana e deixou à vista o homem sensível que ele realmente era. Porém, todos fugiram, porque apenas viam nele músculos, tendões e sangue, mas não aquela sua imensa sensibilidade.
Frantz Ferentz, 2015

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A MALDIÇÃO DO SIGNO DE ESCORPIÃO

Resultado de imagen de scorpioO Fitz nasceu marcado por uma maldição. Todas as mulheres por que se apaixonasse tinham de ter nascido sob o signo de escorpião.

A primeira vez que o Fitz conheceu uma mulher escorpião e se apaixonou por ela foi pela Ivana, uma mulher a quem fez acreditar que cumprir os seus sonhos dependia dela; que o amor não era um sonho, mas um direito; que ouviu mil vezes "amo-te" até adormecer com um sorriso; que foi levada até à lua e que apreendeu a chorar de felicidade. Porém, a Ivana Ruz disse ao Fitz que aquele amor não tinha futuro porque ela tinha medo.

A segunda vez que o Fitz conheceu uma mulher escorpião e se apaixonou por ela foi pela Johanna, uma mulher a quem fez acreditar que cumprir os seus sonhos dependia dela; que o amor não era um sonho, mas um direito; que ouviu mil vezes "amo-te" até adormecer com um sorriso; que foi levada até à lua e que apreendeu a chorar de felicidade. Porém, a Johanna Fallen disse ao Fitz que aquele amor não tinha futuro porque ele ainda não fizera bastante por ela.

A terceira vez que o Fitz conheceu uma mulher escorpião e se apaixonou por ela foi pela Katařina, uma mulher a quem fez acreditar que cumprir os seus sonhos dependia dela; que o amor não era um sonho, mas um direito; que ouviu mil vezes "amo-te" até adormecer com um sorriso; que foi levada até à lua e que apreendeu a chorar de felicidade. Porém, a Katařina Nováková disse ao Fitz que aquele amor não tinha futuro porque ele a amava demais.

A última vez que o Fitz conheceu uma mulher escorpião e se apaixonou por ela foi pela Christina, uma mulher a quem fez acreditar que cumprir os seus sonhos dependia dela; que o amor não era um sonho, mas um direito; que ouviu mil vezes "amo-te" até adormecer com um sorriso; que foi levada até à lua e que apreendeu a chorar de felicidade. Mas como a Christina Rossetti era uma poeta morta em 1894, o Fritz foi feliz até o fim dos seus dias lendo os poemas dela em voz alta à lua. E nunca lhe ouviu dizer que o seu amor não tivesse futuro.

Frantz Ferentz, 2015

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O DIA EM QUE ELE CORTOU AS UNHAS



  Ela encontrou-o como sempre sentado diante do televisor, comodamente sentado no sofá e com os pés apoiados na banqueta, como sempre, com a cerveja ao lado. Porém, ao observá-lo, ela detetou algo diferente, algo que a encheu de alegria.
    — Por fim cortaste as unhas dos pés!
   Sim, depois de tantos meses, ele só chegara à conclusão que tinha de cortar as unhas sem ela lho repetir mil vezes. E é que as unhas deles eram quilométricas.
    Ele, sem se imutar, disse:
    —  Claro, como não estou cómodo sem poder ver a televisão com os pés em alto e não posso ter uma banqueta mais baixa, as unhas eram longas demais e me ocultavam ver a pantalha. Por isso cortei-as... Foi um trabalhão, que o saibas...

Frantz Ferentz, 2015

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

AS RAZÕES DA NATUREZA



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   — Então, padre, acha que a virgem nos castiga quando nos comportamos mal?
   — Castiga.
   — E as pessoas que fazem mal como recebem o castigo?
   — Bom, a santa virgem, que é muito sábia, faz de muitas maneiras. Pode enviar chuva e inundar uma cidade, pode fazer inclusivamente o contrário: impedir que chova durante meses; e até pode fazer que as pessoas iniciem uma guerra entre elas para se matarem e se castigarem assim.
   — Então a representação do teatro na praça que ficou suspendida ontem por causa da  chuva  foi porque a virgem estava zangada connosco?
   — Não, filha, isso foi a natureza. Choveu porque tinha que chover, nós somos pessoas muito crentes e a virgem não nos castiga... 
   — Mas a chuva ontem derrubou árvores...
   — Sim, mas não foi para nos castigar. Foi a natureza, que por causa da mudança climática anda muito alterada... Mas o que estás a fazer? Por que te pões de joelhos?
   — Estou a rezar à natureza. É tão vingativa como a virgem. Decerto algo fizemos mal e estou a pedir que nos perdoe.
   — Filha, tu não entendes nada!
   — É você que não entende, padre, porque a natureza se comporta como a virgem e também castiga. Portanto, eu peço perdão à natureza, porque decerto algo fizemos mal.
   — És uma pagã! Não entendeste nada! A santa virgem não é vingativa, mas é justa.
   — Exato, como a natureza, mas a natureza não é tão caprichosa como a virgem, acho eu...
   

Frantz Ferentz, 2015

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A PRÉDICA DO PASTOR

   O pastor Josué defendeu veementemente que os videojogos eram produto do diabo, que todos os miúdos que jogavam com eles perdiam a alma para sempre e iam todos direito para o inferno.
   O público facilmente influenciável, assim que saiu da sala, lançou-se para as ruas para entrar nos negócios e destruir todos os cartuchos, discos e aparelhos de videojogos, e queimarem as lojas e até aforcarem alguns comerciantes no nome do deus.
   Enquanto o pastor contemplava satisfeito as colunas de fumo e os gritos por toda a cidade desde a porta da sua igreja, um desconhecido achegou-se dele e disse-lhe:
   — Parabéns, pastor, nunca esta cidade foi submetida a um caos assim.
   — É para afastar o diabo —disse o pastor.
  — Acredite-me. Eu sou o próprio Satão e nunca consegui infiltrar-me nas mentes de criadores de videojogos, já gostaria eu... E menos ainda tenho conseguido destruir uma cidade em menos de uma hora como você. Com mais pessoas como você, eu ficaria decerto sem trabalho.


Frantz Ferentz, 2015

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

POR FALAR DE SOGRAS



━ A minha sogra tem um talento único.
━ Qual?
━ Ela é capaz de falar durante quatro horas seguidas sem qualquer tema.
━ Ha, ha, ha, que engraçado. E o que faz quando acaba se não pode mudar de tema?
━ Muito simples: volta a começar...

Frantz Ferentz, 2015

O MECÂNICO DE ALMAS

O Jaime Jesus não percebia por que recebia tantas visitas na sua página sem qualquer relação com o seu negócio. Ele montara o seu sítio para se anunciar como reparador de motores, mas lá todas as pessoas ligavam para que se lhes reparasse a alma. Não entendia nada. Homens e mulheres com imensos problemas, de muitas partes do mundo, pediam orações, mas o único que ele oferecia era reparações de motores, a domicílio, sim, mas apenas isso. E por cima escreviam-lhe em francês na maioria dos casos.
   ━ Não percebo por que querem que lhes repara a alma e não um motor ━lamentava-se um dia cheio de pesar o Jaime Jesus entre os seus amigo da taverna, enquanto lhes mostrava no tablet algumas das mensagens.
   Os outros só assentiam erguendo a caneca de cerveja solidariamente. Infelizmente nenhum deles sabia francês. Por isso, não percebiam que www.jaimejesus.com em francês era como se o nome do sítio fosse www.euamojesus.com em português.

Frantz Ferentz, 2015